Obesidade Infantil

O acompanhamento do estado nutricional de crianças permite diagnosticar seu estado de saúde atual, bem como predizer parcialmente seu prognóstico na vida adulta. A prevalência de obesidade infantil, no Brasil, apresenta aumento progressivo em todas as classes sociais e sua frequência varia entre cinco a 18%, dependendo da região. Práticas alimentares caracterizadas por elevado teor de gordura, açúcar e sal e por reduzido consumo de cereais integrais, frutas e hortaliças associadas à inatividade física decorrente do uso de computadores, jogos eletrônicos e televisores influenciam parte considerável de crianças. Este estilo de vida reflete os hábitos familiares e pode ser influenciado pelo ambiente escolar no qual a criança está inserida.

O estilo de vida atual, resultante de um conjunto de fatores como inserção da mulher no mercado de trabalho, violência nas grandes cidades, aumento da carga horária escolar, refeições fora do domicílio, ausência dos pais nas refeições, entre outros, pode contribuir para a instalação da obesidade, com repercussões na saúde infantil e na vida adulta.

Pesquisas têm mostrado a importância do consumo de frutas e hortaliças para prevenir a obesidade e suas comorbidades, porém a ingestão destes alimentos em crianças está bem abaixo dos valores recomendados. Geralmente, alimentos com baixa palatabilidade como vegetais são oferecidos às crianças em contexto negativo pelos próprios pais ou responsáveis, dificultando a sua ingestão.

Pela pirâmide alimentar brasileira, recomenda-se para crianças em idade escolar seis porções de pães e cereais, quatro porções diárias de frutas e de hortaliças, uma porção de leguminosas, duas de carnes e ovos, três de leite e produtos lácteos, duas de açúcar e doces e uma de óleo e gordura. Para adolescentes as mesmas porções de frutas, leite e carnes, mas sete de cereais, quatro porções e meia de hortaliças, duas de leguminosas e uma porção meia de açúcar e óleo.
A relação entre práticas alimentares inadequadas e o excesso de peso é bem clara. Há maior razão de prevalência para obesidade em crianças que consumem quantidade superior de alimentos industrializados, tais como salgados fritos, batata frita, sanduíches, salgadinhos comercializados em pacotes, bolachas, balas e refrigerantes.

As escolas, ao oferecerem alimentos hipercalóricos nas cantinas, contribuem para o seu consumo inadequado. No âmbito escolar, torna-se, portanto, necessário estimular o consumo de alimentos adequados por meio da oferta menos frequente daqueles de alta densidade energética. Determinados componentes dos alimentos industrializados como gordura vegetal hidrogenada, sódio, açúcar em excesso são alvos de estudos que relacionam o seu consumo excessivo com o aumento da obesidade e comorbidades associadas.

O consumo de refrigerantes, constituído basicamente de açúcar ou edulcorantes na versão light/diet, está associado à redução da ingestão de leite e suco de frutas naturais. Outro ingrediente utilizado como adoçante de bebidas e frutas industrializadas é o xarope de milho com alto teor de frutose. A razão para seu amplo uso é que a frutose apresenta maior solubilidade em meio aquoso, tem preço reduzido em até 70% e sua eficiência como adoçante é 1,7 vezes maior que a sacarose.

O consumo excessivo de sal, superior a cinco gramas ao dia, é apontado como componente integrante da transição nutricional. A maior parte do sódio consumido é proveniente de produtos industrializados e também, de alimentos preparados em restaurantes. Estudos populacionais relacionam o elevado consumo de sódio e o aumento da pressão arterial, enquanto a redução deste nutriente pode diminuir o risco de doenças cardiovasculares. A elevada ingestão de sódio pode também reduzir a densidade mineral óssea por gerar carga ácida e estimular a excreção urinária de cálcio.

Obesidade Infantil e o Aleitamento Materno

Um fator que merece destaque no contexto das práticas alimentares infantis é a duração do aleitamento materno e o momento da introdução dos alimentos de transição. Estudos apontam a importância do aleitamento materno no crescimento infantil e mostram a necessidade desta prática ser exclusiva até o sexto mês de vida. O aleitamento materno pode preparar o paladar infantil para os alimentos consumidos pelos familiares, uma vez que a alimentação materna pode alterar o sabor do leite, o que auxiliaria na aceitação de novos alimentos no período do desmame. Um estudo Brasileiro mostrou aumento de três meses na duração da amamentação entre as brasileiras no período de 1970 a 2002, porém concluiu que a duração mediana ainda era muito baixa, com variações entre as regiões brasileiras.

Uma das dificuldades encontradas ao estudar a amamentação é a falta de padronização do termo, principalmente quando se utiliza o termo aleitamento exclusivo. Pesquisas evidenciam que o aleitamento materno pode prevenir a obesidade. Tal hipótese é explicada pelo menor conteúdo energético e proteico comparado às fórmulas lácteas, à presença de fatores bioativos no leite materno que podem modular o metabolismo energético e à presença de leptina que modula o apetite, resultando assim em ganho de peso mais fisiológico.
Já a metanálise de seis pesquisas mostrou que há pouca evidência da influência do aleitamento materno na mortalidade por doenças cardiovasculares na fase adulta, mas indicou forte evidência de benefícios em relação aos fatores de risco cardiovascular.

Em resumo, a inatividade física está aliada à transição nutricional. A urbanização e a industrialização criaram um ambiente com reduzida prática de atividade física, devido à exposição excessiva a televisão, jogos eletrônicos, computadores e serviços de pronta entrega no domicílio, que corroboram para um estilo de vida sedentário.
A revisão dos dados sugere que as transições demográfica, epidemiológica e nutricional ocorridas nas últimas décadas são os principais fatores para o excesso de peso de crianças e adolescentes, uma vez que estas transições proporcionaram grandes alterações no estilo de vida da sociedade. A inserção da mulher no mercado de trabalho dificultou a prática do aleitamento materno exclusivo até o sexto mês e, posteriormente, o preparo de refeições no domicílio, o que, por sua vez, propiciou o consumo de alimentos industrializados e a ingestão maior de açúcares e gordura. Com a urbanização e o aumento da violência nas grandes cidades, o padrão de vida das crianças e adolescentes se modificou, aumentando o tempo despendido diante de televisores ou computadores. O desmame precoce, a alimentação pouco balanceada e a inatividade física geraram um ambiente propício para o sobrepeso e obesidade.
Texto adaptado: Contribuições das práticas alimentares e inatividade física para o excesso de peso infantil

Feeding practices and physical inactivity contributions to childhood overweight

Ana Elisa M. Rinaldi1, Avany Fernandes Pereira2, Célia Sperandeo Macedo3, João Felipe Mota4, Roberto Carlos Burini5